quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Sobre a dor.

Tenho dor.
E o que não falta a mim são remédios.
Estes, sobram por aí, nas prateleiras das farmácias, nas mãos de especialistas e nas cabeças daqueles que se consideram entendidos.

Sinto dor.
E o que não falta no mundo é quem não a sinta.
E, a dor que sentimos é sempre, por mais que se procure e que se sonde, algo que ninguém sabe descrever exatamente como é.

Vivo a dor.
E quem nesta terra se diz imune à dor?
Por tudo que sei, e dos curtos anos que vivi, descobri que a dor é algo muito, MUITO pessoal.
Mas, como costumava citar alguém que considero muito sábio: "Às favas".

Dor sua? Ah, meu filho, é MUITO sua.

Viver as dores dos outros? Isso é balela. Não, não existe. Daquilo que é alheio ninguém sabe.

Egocentrismo? Vitimismo? Ok, com licença, desculpe-me.
Apenas desenhei a teia que me enreda, que me veda e que me limita.
Fundo dos fundos, eu sempre escolhi onde queria ser atingido.
E era na cabeça. No crânio. Na fonte.

Onde podem matar minhas idéias. Onde podem silenciar o que sou.

E, do alto do trono, onde julgamos ver tudo que nos interessa, algo acontece.
Algo vem, e nos bagunça.
O mundo vem a tremer, sacode, e nos surpreende.
Onde depositei o que me era mais sagrado?
Onde estarão as coisas que mais prezei? Onde estão aqueles em que confiei?

Quem começou calado, um dia terá de falar.
O momento da defesa chega. E o que você sabe sobre se defender?

Na verdade, QUEM É que sabe sobre isso?

Será que sabem os paranóicos, que vêem em cada sombra um motivo para se resignar?
Ou sabem os loucos, que julgam em cada pessoa uma visão daquilo que eles não o são?
Ou os agressivos, que degladiam-se por qualquer motivo, vivendo como animais?

E, mesmo se estes que soubessem, QUÊ ouvidos lhes seriam dados?

É incrível. Incrível é, como tecemos críticas sobre o que acontece conosco, e também a nossos pares e semelhantes. Mas como é difícil, muito difícil, nos definir claramente a partir de nossas opniões.

No entanto, apesar dos pesares, pagarei os meus respeitos aqui, àqueles que se fizeram sozinhos, por falta daquilo que o mundo os devia, e, mesmo assim, prosperaram, alavancaram-se acima das adversidades.

Parabéns.

E, como eu não creio em coincidências ou acasos...estejam certos, fiquem bem certos, estes.

A teia do destino afetará muito mais à vocês do que aos demais.

O chicote bate em todos. Mas acerta com mais força em quem se mexe mais.

sábado, 12 de dezembro de 2009

E há verdade.

Hoje é uma noite estranha. Provavelmente, não pra você, mas pra mim é. Faz uns 4 dias não saio de casa, por conta de um "acidente". Pra não dizer que não saí, sai hoje, fui assistir um ensaio da banda de uns amigos (amanhã eles tocam no Rio, e estarei lá também), e consegui fugir pra tomar umas três cervejas com um grande amigo meu.

Às vezes, três cervejas bastam pra você captar coisas que passam despercebidas o tempo todo. E mais três cervejas em casa bastam, pra você realizar reflexões que normalmente não faz. "In vino veritas est", disse algum sábio anônimo, em Roma. A verdade está no vinho, e isso se aplica tanto pra verdade que vai pra fora, como pra que vem dentro.

Fui fumar um cigarro na varanda, e deparei-me cantarolando "Ouro de Tolo", música de Raul Seixas. Desconcertante, como certos versos fazem sentido:

"Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto 'e daí?'
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado..."

É isso mesmo. Galgamos vales, montes, horizontes impossíveis, conquistamos coisas boas e grandes, nos vemos no topo do mundo, cutucamos a inveja de nossos próximos...pra depois relaxar, achando que a vida tem sido boa demais pra nós, e nós bons demais pra ela, e fim. Como sou preguiçoso, Deus! E em seguida, o que acontece? Tudo perde o sentido. Me pergunto quem mais escutou esses versos cantados por Raul, desta forma, como ouço agora.

Vou dizer pra vocês, com sinceridade. Realmente, foi FÁCIL, MUITO FÁCIL, tudo que veio até mim, nesta vida. E que vocês reprimam sua cobiça, ciume ou inveja. Não tenho vergonha nenhuma de assumir este fato. É simplesmente como tem sido, apenas. Grato sou, a Deus e ao Universo que me rodeia. Mas claro, como tudo sempre, o que recebemos tem os seus revezes. E estes eu garanto que vocês não gostariam de ter.

Pensando agora com uma clareza que só o álcool desinibe, existem poucas coisas que me esforcei com tudo pra ter. Na verdade, de todas, UMA delas me dá real orgulho, que é ter aprendido a cantar. É uma coisa que aprendi sem orientação de ninguém e desenvolvi por mero prazer. Nunca decidi ser o melhor nisto, mas pelo menos consegui cantar como sempre quis, as coisas que sempre quis. Não existe segredo pra nada nesta vida, mas todo mundo faz de conta que certas coisas são inalcançaveis. Eu não faço. Não sou o melhor, e nem serei. E também, e pouco me importa.

Voltando à musica de Raul, algumas estrofes mais a frente:

"Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador..."

A música toda tem tudo de autobiográfico, pra quem conhece a história de vida desse artista fabuloso. E estes trechos acima guardam em si muito do ocultismo envolvendo as músicas do Raul, pra quem sabe o que está sendo dito. E tem muito do que é real, neste mundo e na vida de todos. A primeira estrofe define claramente a indignação com a indiferença e a inação de tantas pessoas nesse mundo. A falta de consciência. De informação. A sujeição das pessoas, a conformação com o que ocorre. A indiferença pura.

Minha mãe (que é contemporânea de Raul Seixas), esta semana, teceu uns comentários sobre a personalidade públicamente conhecida do cantor. Ele era, definitivamente, uma pessoa que conseguia tudo o que queria. Não se sujeitava, muito menos se adequava, a conceitos que não correspondessem aos seus próprios. Talvez, por isso, neste trecho, ele critique tão fortemente, quem se acomoda, se abanca em cima de seu tesouro e esquece do mundo.

Diz ele também que as pessoas adquiriram a tendência de se isolar em "cercas embandeiradas que separam quintais". Todos definiram seus territórios, suas zonas eternas de conforto. Idiotice. Podem ter conquistado tudo, ter conquistado o mundo, mas tornaram-se tão vivas quanto rochas; monolitos históricos tão sólidos quanto um Stonehenge humano. De que servirão estas pedras amanhã, se ninguém sabe pra que elas servem hoje?

Para aqueles que tem "um olho que vê", serão percebidas as mudanças. Aquele "disco voador" do novo, que vem pousando, se delineiando no horizonte, pra nos desafiar. Que está ali, pra conhecer e mudar um novo mundo, nosso mundo, enquanto nos recusamos a olhar, simplesmente pelo fato de que temos medo de modificar nosso pequeno e particular universo pessoal.

Que este novo ano nos traga mudanças. Mudanças estas tão cabais que ninguém seja capaz de negar.

E que isto seja pra você. E para mim também.