O que retrato neste post é matéria que creio tocar a todos, e que, num aspecto mais amplo, representa a importância da plena percepção de si mesmo. Os créditos pela inspiração deste texto vão diretamente para a cervejaria Brahma (InBev), ao projeto musical "Hear n' Aid", realizado nos anos 80, e aos anônimos citados nos diversos momentos do texto.
[Aos letrados e pseudoletrados: advirto com veemência que não concordo com o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, vigente desde 2009. E, como sempre, coloquialismo está na minha veia. Não gostou? V-A-Z-A. (Apesar que, tenho certeza, eu ouviria alguns "ufa" por esta declaração!)]
O assunto deste monólogo é mera e simples tentativa de compreender como se realiza a percepção do self , o dito Eu (com É maiúsculo), e como este só se faz perceber e se oportuniza através da interação com o Outro (Com Ó maiúsculo), seu próximo, e nos leva a percepção real daquilo que chamamos de Nós Mesmos.
[Fim da terminologia.]
Há alguns dias atrás, bebendo com um amigo, percebi a declarada necessidade que possuímos de conversar. O ato da comunicação em linguagem codificada por enquanto é mérito único da espécie humana. No entanto, o porquê desta necessidade de se comunicar é fracamente compreendido, enquanto os teóricos trabalham baseados em vieses dos seus tataravós da academia, e enquanto ainda não observam suas matérias de maneira mais prática. Enfim, o grande insight deste papo com meu brother foi este: pude entender o quanto a presença do Outro nos define enquanto Eu. E que a opnião, opção, juízo ou razão de sermos só faz sentido em contraponto ao que nos transcende. A Igreja Católica Apostólica Romana entendeu claramente (e utilizou em muitas vias e para autobenefício) esta necessidade do ser humano de falar com o Outro, quando criou o dito sacramento da "Reconciliação" (a tão sagrada"confissão", para os beatos de TV Globo, domingo de manhã).
Então, nos incomoda saber o seguinte: o quanto outro nos torna conscientes de quem realmente somos? Melhor: o que nos traz a percepção de quem realmente somos? Nice question, grasshopper.
Li um texto interessante uma vez, um estudo sobre a reação humana. A hipótese era: suponhamos que se pudesse pegar um feto, no ventre materno, e isolá-lo de qualquer contato e percepção do que lhe é externo, e que, quando nascesse, esta condição continuasse lhe sendo imposta. Sem contato, sem percepção, sem alteração. O que sucederia? A derivada foi: perceberia tanto quanto uma pedra percebe. Nada e mais nada. Ele nasceria cego (por não conhecer a luz) e surdo (por não ouvir som algum). Não sentiria calor nem frio, nem dor nem prazer, e nem seria inteligente. Por quê? Oras, por que tudo que julgamos enquanto percepção e conhecimento são meramente reações aos eventos que nos surgem, oriundos de um ambiente externo. Definimos nossa razão de existir pelo que existe ao nosso redor, seja através de aceitação ou rejeição ao que nos é oferecido. Já pararam para analisar que, todos aqueles que historicamente consideramos como gênios, sábios e iluminados de todas as eras trouxeram até nós experiências que correspondiam claramente mais à ação consciente do que à reação inconsciente?
Tá, tá, concordo. Impossível realizar esse tal experimento do feto, e tem outras implicações também. Mas, enquanto experimento mental, nos clarifica totalmente. Somos, em parcela esmagadora de nossa personalidade, meros reflexos e reações a atores externos ao nosso inner, nosso interior, nosso Eu.
Somos altamente reflexivos e também inflexíveis. Dê a alguém a oportunidade de expressar sua opnião sobre um assunto. E saiba que, se esta pessoa possui um juízo formado sobre a matéria em questão, depois de uma discussão a dita opnião sairá deveras fortalecida. Experimenta sacanear o time alheio, pra você ver.
Contudo, o aprofundamento desta inegável necessidade de precisar do próximo para nos definir eu vos arremato agora, com outro relato. Num táxi, voltando para casa esta noite, entabolei um diálogo com o taxista. Eu pude perceber claramente a reação de alívio e autoafirmação desta pessoa, ao poder contar para um desconhecido algumas situações pessoais. Pergunta: que papel representei naquele táxi? Resposta: o papel do Outro. E quem representava o taxista? Naquele instante representava o Eu, e só poderia representá-lo pelo fato de minha estada ali, naquela viagem, naquele momento.
A percepção de quem somos só se justifica dentro deste binômio "Eu-Outro". E enquanto se mantiver referencial, binomial: é necessário que existam no mínimo dois pontos de vista diferentes, para que se inferencie um valor válido, quantificável e substancial, sobre aquilo que seja uma matéria, objeto ou juízo. A diferença entre estes juízos é que confirma sua própria existência. Tem-se então a razão definida do Eu e do Outro. Portanto as equações matemáticas do "saber quem somos" só se validam quando os dois extremos existem, o Outro e o Eu.
E, plagiando a matemática novamente, estas equações só encontram seu equilíbrio quando o Eu assume a responsabilidade pelo Outro. E vice-versa.
Mas esta responsabilidade é um assunto para outro post.
Até.