O vento soprava forte no alto da colina. O jovem pupilo bloqueia um ataque em giro de seu mestre, com alguma hesitação. Percebendo sua falta de firmeza, o mestre rapidamente dá um passo adiante, empurrando-o com força, lâmina contra lâmina, e desequilibra seu aluno, que desaba de costas naquele solo, já parco de grama, devido aos treinos duros e diários sobre o topo do monte. Seu pupilo ergue-se rapidamente, embaraçado por ter se deixado cair tão fácil. No campo de batalha, tombar-se significa desvantagem evidente, e desvantagem significa morte.
O jovem limpa o suor do rosto com a manga do kimono. Depois ergue a espada com as duas mãos juntas ao ombro e retoma a posição de combate aprendida. Avança então, cautelosamente em direção ao mestre, que o espreita com os olhos fendidos, apertados, avaliando cada leve movimento. Os dois giram num circulo largo e invisível, como que engajados numa dança, uma dança de morte.
Enquanto escolhia o instante de seu ataque, o pupilo compreende o ardil de seu mentor: o sol poente, ainda a duas horas de ocultar-se no horizonte, fere sua visão, atordoando-o por uma mínima fração de segundo. A lâmina pára a exatos dois centímetros do cabelo do jovem, sobre a têmpora esquerda, num golpe preciso e que seria, indubitavelmente, fatal.
- Numa batalha, um guerreiro sábio deve escolher e preparar seu terreno de luta - suspira o mestre, batendo por fim a espada de lado na cabeça de seu aprendiz. O jovem solta um gemido, esfregando a pancada na cabeça. - E se eu não puder escolher nem preparar o terreno? - indaga o jovem. - Use o que estiver a sua mão - responde o velho homem, apontando os dois dedos para os olhos do aluno, que lembra do sol e entende a lição. Reverenciam-se, retomam as posições e o treino prossegue por mais um pouco, até o fim do crepúsculo.
Mais tarde, após a refeição noturna, o mestre convida o pupilo a caminhar um pouco pelo jardim de sua casa. Os dois caminham em silêncio por alguns minutos. Por fim, o jovem faz uma pergunta ao velho: - Sensei, perdoe minha ignorância, mas eu não consigo compreender. Não compreendo como homens que são capazes aprender a arte de forjar e reforjar uma espada meia centena de vezes, até que ela fique dura como a rocha e afiada como a garra do falcão, não sejam capazes de aprender a empreender a paz.
O mestre silencia seus movimentos, contemplando longamente seu discípulo e destilando a sabedoria contida em suas jovens palavras. Então diz: - Você tem toda a razão, meu filho. Talvez nós homens tenhamos nos atido demais à nossa própria beligerância, ao nosso instinto primitivo. Aprendemos e aprimoramos primeiro a arte da guerra e da morte, antes de compreender o que é a arte da diplomacia e da aliança. Mas isto não significa que não sejamos capazes de realizar a paz. Digo-te apenas que, nestes tempos difíceis, tudo tem um preço - inclusive, a própria paz.
- Quer dizer que a paz tem um preço? - confunde-se o pupilo. - E qual é o preço da paz, Sensei?
Por fim, o Sensei responde: - A paz poderia ser dura como o aço da espada, se tivesse sido sempre reforjada pelos homens. No entanto, a espada é quem foi escolhida e reforjada, e é por isso, por quê a espada tornou-se mais forte e comum é que a paz é tão rara e tem seu preço, e este preço será pago com espada. Então, nunca se esqueça disso, meu filho, nunca se esqueça que o preço do homem pela sua paz será sempre a sua eterna vigilância.
O jovem limpa o suor do rosto com a manga do kimono. Depois ergue a espada com as duas mãos juntas ao ombro e retoma a posição de combate aprendida. Avança então, cautelosamente em direção ao mestre, que o espreita com os olhos fendidos, apertados, avaliando cada leve movimento. Os dois giram num circulo largo e invisível, como que engajados numa dança, uma dança de morte.
Enquanto escolhia o instante de seu ataque, o pupilo compreende o ardil de seu mentor: o sol poente, ainda a duas horas de ocultar-se no horizonte, fere sua visão, atordoando-o por uma mínima fração de segundo. A lâmina pára a exatos dois centímetros do cabelo do jovem, sobre a têmpora esquerda, num golpe preciso e que seria, indubitavelmente, fatal.
- Numa batalha, um guerreiro sábio deve escolher e preparar seu terreno de luta - suspira o mestre, batendo por fim a espada de lado na cabeça de seu aprendiz. O jovem solta um gemido, esfregando a pancada na cabeça. - E se eu não puder escolher nem preparar o terreno? - indaga o jovem. - Use o que estiver a sua mão - responde o velho homem, apontando os dois dedos para os olhos do aluno, que lembra do sol e entende a lição. Reverenciam-se, retomam as posições e o treino prossegue por mais um pouco, até o fim do crepúsculo.
Mais tarde, após a refeição noturna, o mestre convida o pupilo a caminhar um pouco pelo jardim de sua casa. Os dois caminham em silêncio por alguns minutos. Por fim, o jovem faz uma pergunta ao velho: - Sensei, perdoe minha ignorância, mas eu não consigo compreender. Não compreendo como homens que são capazes aprender a arte de forjar e reforjar uma espada meia centena de vezes, até que ela fique dura como a rocha e afiada como a garra do falcão, não sejam capazes de aprender a empreender a paz.
O mestre silencia seus movimentos, contemplando longamente seu discípulo e destilando a sabedoria contida em suas jovens palavras. Então diz: - Você tem toda a razão, meu filho. Talvez nós homens tenhamos nos atido demais à nossa própria beligerância, ao nosso instinto primitivo. Aprendemos e aprimoramos primeiro a arte da guerra e da morte, antes de compreender o que é a arte da diplomacia e da aliança. Mas isto não significa que não sejamos capazes de realizar a paz. Digo-te apenas que, nestes tempos difíceis, tudo tem um preço - inclusive, a própria paz.
- Quer dizer que a paz tem um preço? - confunde-se o pupilo. - E qual é o preço da paz, Sensei?
Por fim, o Sensei responde: - A paz poderia ser dura como o aço da espada, se tivesse sido sempre reforjada pelos homens. No entanto, a espada é quem foi escolhida e reforjada, e é por isso, por quê a espada tornou-se mais forte e comum é que a paz é tão rara e tem seu preço, e este preço será pago com espada. Então, nunca se esqueça disso, meu filho, nunca se esqueça que o preço do homem pela sua paz será sempre a sua eterna vigilância.
Nenhum comentário:
Postar um comentário